Marta Crawford, sexóloga e terapeuta de casal, dedica-se a compreender e a ajudar relações a funcionar melhor desde 1996. No seu consultório, presentemente na Alameda D. Afonso Henriques, em Lisboa (tel. 21 847 01 87) recebe os mais variados pedidos de “socorro” de casais de diversas idades, aos quais responde com atenção personalizada.

Mas em que consiste, afinal, a terapia de casal? A especialista explica que “tem a ver com tudo o que são questões relacionadas com a conjugalidade, ou seja, da relação. Tudo o que são situações desestabilizadoras para o casal, quer a nível sexual, quer a nível de comunicação, questões de poder, divisões de tarefas domésticas, são questões passíveis de ser trabalhadas na terapia de casal.”

A terapeuta aborda a área da sexologia, com uma intervenção individual e de casal para estas questões, e por outro lado também os problemas de comunicação entre o casal. “Nem sempre é o tema da sexualidade que leva os casais a procurar ajuda, embora de facto seja a grande maioria. O que faço é atuar nas duas áreas, integrando-as no mesmo tipo de intervenção. Por vezes o casal acredita que o problema é a simples falta de desejo, e normalmente ao fim de duas ou três sessões eu percebo que, além da questão sexual, existem outras situações que estão a comprometer a sexualidade – e por vezes não é uma questão direta, mas sim relacionada com outros assuntos”, conta Marta Crawford.

Existe pudor em pedir ajuda”

Atualmente, a terapia de casal ainda é considerada algo reservado para as elites? Marta Crawford considera que não:

“Acho que a questão das elites está relacionada com o custo. Nem toda a gente tem disponibilidade financeira. Haveria muita procura se houvesse maior disponibilidade dos serviços públicos para intervenções deste género. O que eu vejo a nível do consultório é que às vezes, quando os casais não marcam uma consulta de casal logo a priori é porque ainda existe alguma necessidade de um dos elementos perceber primeiro como tudo funciona antes de convencer o outro. Ou então porque é o elemento que fala mais, é mais extrovertido, e não sabe se o outro se sentirá bem em ambiente de consultório. Creio que ainda existe um determinado pudor em recorrer à terapia de casal. Depois, consoante o que esse elemento me conta, eu avalio e digo que talvez o melhor seja falar com o parceiro ou parceira, que ele ou ela pode ir primeiro sozinho/a, ou logo ambos, para que tudo resulte.”

Marta Crawford faz um plano de intervenção personalizado para cada casal que conhece, após conversas individuais e em conjunto, mas nem sempre tudo corre como esperado. Aí, a especialista sabe que normalmente há algo por desvendar. “Se, a determinada altura, vejo que não está a ecoar como gostaria, preciso de perceber se há algo que não bate certo, e peço para ver cada um em separado. Muitas vezes é aí que vou descobrir factos novos que não são partilhados com o parceiro, por algum pudor. E há coisas que se ultrapassam, e outras não. Quando percebo que um dos elementos está interessado noutra pessoa, por exemplo, então aí é óbvio por que razão a terapia não está a funcionar – tem a cabeça noutro sítio! Mas existem múltiplas razões que podem estar a bloquear a terapia. A maioria dos casais ainda tem muita dificuldade em partilhar a intimidade porque as pessoas sentem que ao serem honestas e verdadeiras podem magoar o outro. Muitas vezes quando estão na mesma sala o casal parece estar em sintonia, mas depois em separado percebo que há um que quer muito alguma coisa – um filho, uma viagem, construir uma casa – e o outro não quer, mas não tem coragem de expor as suas razões. E é isso que faz com que a relação não funcione. Tudo porque não têm coragem de verbalizar aquilo que querem ou não querem”, afirma a especialista.

As pessoas ainda têm muitas minhocas na cabeça”

A terapeuta ajuda os casais a resolver problemas de toda a espécie. “Muitos dos pedidos têm a ver com o momento a seguir ao nascimento do primeiro ou segundo filho. Há casais que se distanciam e não conseguem reaproximar-se e retomar a vida como casal. De facto, as crianças vêm transformar a dinâmica que os casais tinham antes de ter filhos. Mas também tenho muitos casais sem filhos…”

A especialista conta que há muitos problemas de ejaculação precoce ou rápida, dificuldades de ereção e em atingir o orgasmo.

“As pessoas continuam a achar que o sexo significa penetração, e que precisam de ter um orgasmo durante a penetração. Há ainda muitas ideias erradas que fazem com que a vida sexual das pessoas seja bastante infeliz porque têm preconceitos e não usufruem das coisas em pleno porque acham que não estão a fazer bem, ou que podia ser diferente. Acho que intimamente ainda estão muito cheias de minhocas na cabeça, o que impede que desfrutem da vida sexual.”

Além das questões de sexo – a falta de desejo sexual de um dos elementos, que continua a ser a questão mais frequente, segundo a especialista – a gestão da vida profissional e das rotinas e a dificuldade em viver a vida com satisfação enquanto casal é outro problema muito comum. “Porque tem rotinas que consideram ‘pesadas’ e não têm tempo para outras coisas. Não gerem bem o tempo depois do trabalho, quando saem do trabalho perdem energia, motivação e disponibilidade. Entram naquela monotonia de ver séries e ficar a “pastar”… Tudo o que fazem em casa, seja a refeição, ou o que for, é um fardo. Vejo muitos casais jovens com uma atitude muito infeliz, que acham que só ao fim de semana se vive e durante a semana a vida é morna. Há uma apatia conjugal: não se surpreende o outro, nem se puxa pelo outro… Mais do que mudar a vida sexual, temos de mudar a atitude. E às vezes é tão difícil porque, apesar de se queixarem, estão habituados a ela, e não conseguem libertar-se dessa rotina desinteressante.”

Também situações de conflito laboral, com o desentendimento e o stress que provocam, as questões financeiras, a relação com os filhos, a interferência do sogro ou da sogra na vida do casal, são muito frequentes no consultório de Marta Crawford. No entanto, a especialista considera que não há problemas demasiado graves ou sem solução. “A partir do momento em que um casal pede ajuda, acho que há sempre hipótese de conseguirem recuperar a relação. Desde que foquem a sua energia para as sessões e tenham verdadeiramente vontade de salvar o casamento, então há esperança.”

Como se processa?

A terapeuta explica que uma terapia clássica intensiva se completa em cerca de 6 ou 7 sessões, cada uma de 15 em 15 dias. “Preciso que o casal esteja motivado e concentrado na mudança; não posso esticar isto ao infinito, porque as pessoas têm um tempo de atenção e de motivação limitado. Além disso, estamos a trabalhar duas pessoas ao mesmo tempo.” No entanto, a especialista indica que pode variar, dependendo dos casos mais específicos. E afirma que, sim, prescreve os famosos “trabalhos de casa”. “A terapia sexual tem um protocolo muito específico. Há coisas que permito que se façam, há coisas que proíbo, coisas que sugiro, e tudo isto faz parte do protocolo. Há coisas que começo por impedir, e recomendo outras. A terapia tem objetivos: aproximar, criar a cumplicidade, confiança, etc., e os exercícios têm sempre esse subtexto. Mas normalmente os casais gostam dos trabalhos de casa. São sugestões positivas. [risos]”

Todos temos a nossa «mochilinha»”

Afinal, parece que não é o sexo a principal causa de divórcio. Segundo Marta Crawford, o que mais separa os casais é a falta de reconhecimento pelo outro. “Isso torna as pessoas muito vazias e acabam por ter necessidade de procurar isso fora da relação. Se na relação não há elogios, e uma terceira pessoa os dá, então eu vou começar a olhar para essa pessoa. Esta questão é muito importante para a manutenção de uma relação, ou então fica destituída de interesse e de valor.” Também a incompatibilidade sexual pode ser contornada, ainda que o desinteresse sexual acabe por surgir ao longo dos anos.

“Há sempre um que quer mais sexo, há sempre um que tem esta ou aquela fantasia. No início das relações muitas vezes as pessoas não são muito honestas e aceitam fazer coisas que podem ser contrárias ao que realmente querem. Há sempre uma adaptação que fazem um ao outro, porque ambos têm passado e relações anteriores, trazem a sua «mochilinha», com tudo o que ela implica. Por vezes até casais juntos há 15 anos têm um certo pudor, uma cerimónia em partilhar um com o outro o que querem, do que gostam… Ou as pessoas se alimentam constantemente e puxam uma pela outra, ou pode haver desinteresse sexual ao longo dos anos. Claro que todos temos momentos: podemos por vezes estar mais focados nos filhos, ou no trabalho, mas a vida sexual por si até pode ter começado já desinteressante e não ter havido nunca a capacidade de o casal dar a volta – por pudor, por inibição, por achar que era assim… É preciso que cada um seja o «motor» para fazer com que a relação se torne mais interessante. A pessoa vai crescendo, o ciclo da vida vai progredindo, e tudo isso influencia a forma como vamos entendendo a relação, a sexualidade e a forma como vemos o outro”, indica a terapeuta.

O que fazer para manter um casamento feliz?

A especialista considera que a partilha do que se gosta e do que não se gosta é fundamental. “Perceber porque é que a pessoa está menos disponível, não ter receio de dizer a verdade e não «gramar a pastilha». Haver espaço para conviver um com o outro e com os amigos – quem tem filhos pequenos e avós ou familiares que possam dar assistência, deve pedir ajuda e continuar a estar enquanto casal. Têm de conseguir perceber que trabalhar não é a única coisa importante na vida. Não basta dormir na mesma cama e quase não se verem, é preciso «estar». Não ligarem a televisão assim que chegam a casa, fazerem coisas partilhadas, mas também terem espaço individual para cada um. No fundo, é alimentarem as suas vidas de uma forma que seja interessante. Não se deixarem apagar pela vida. Os problemas também se resolvem melhor quando o casal está mais unido e disponível.”

Carmen Saraiva


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